sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Acerca dos efeitos da natureza do ser humano sobre ele próprio

Homo sapiens. Com certeza a besta mais terrível e assustadora que o universo conseguiu gerar. Um cérebro tão poderoso, capaz de produzir interações nervosas e neurológicas tão complexas, que a torna o único ser detentor de uma coisa que ela mesma, também em virtude desse alto nível de complexidade cerebral, denominou de “mente”, ou “consciência”. A única forma de vida que é apta a dar nomes às coisas – apta inclusive a dar um nome ao ato de dar nomes às coisas, a saber, a linguagem. A única forma de vida que consegue ousar se voltar contra os próprios instintos, contra as próprias sensações, contra sua própria natureza.

Observe bem e notará que nenhum outro animal, nem mesmo qualquer outro ser vivo em meio à inúmera quantidade de níveis classificatórios que criamos, volta seus instintos de vida contra si mesmo; apenas esse monstro insaciável, o ser humano, o faz – e o fez de tal maneira, durante toda a sua história, se espancou de tal modo, se agrediu, se iludiu com essa avidez de artista tão poderosa, a qual almeja sempre a tudo modificar e criar algo diferente e superior, que hoje esse pobre ser, vítima de si mesmo, encontra-se de uma maneira disforme, quebrantada, machucada, doente, incapaz de se reconhecer pertencente àquilo que ele mesmo uma vez, como de costume – e até com uma certa ironia – deu um nome: “natureza selvagem”.
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Fiquei pensando em todo esse monte de esterco enquanto dava uma olhada nessa retrospectiva fotográfica de 2010: http://www.boston.com/bigpicture/2010/12/2010_in_photos_part_1_of_3.html

A meu ver – isto é, pode-se discordar de mim, embora seja pouco provável que você esteja mais certo do que eu* – cada um desses registros mostra ser, em sua essência, uma expressão do instinto humano de caráter mais natural, mais básico, que é o instinto de dominação. Mais que um suposto instinto de pura sobrevivência, o impulso de dominar, controlar, modificar tudo o que há em volta, parece vestir de maneira mais adequada o cerne das motivações e sentimentos humanos. Isso se reflete desde as competições de índole esportiva, homicídios passionais até guerras, protestos, atentados terroristas, exploração espacial e de recursos naturais, até mesmo aos atos mais singelos de compaixão, altruísmo, caridade, filantropia e humildade. No entanto, aconteceu que o homo sapiens passou a distribuir conceitos de “certo” e “errado” a determinadas ações, “virtude” e “destemperança” a supostas motivações.

Claro que esse é um assunto muito extenso, controverso e polêmico. Foucault escreveu sobre isso, até mesmo de uma forma que pode soar sádica aos ouvidos mais sensíveis; por sorte, há diversas partes da filosofia dele que podem, se bem manejadas, servir para mimar o senso moral de nossa civilização contemporânea, o que permitiu que seus livros não fossem parar numa fogueira ao pé de uma cruz. Isso não acontece com Nietzsche ou Deleuze, por exemplo; enquanto este é pouco traduzido e alvo de pequeno interesse, aquele é odiado até as entranhas ou ignorado, polido e distorcido em suas partes mais ácidas e contundentes.

Enfim, pra quem já teve alguma inclinação a se fazer questionamentos desse tipo, recomendo ler algum livro desses três aí. Pra mim eles serviram como uma expressão escrita de várias coisas que já intrigavam essa minha pobre mente limitada – e vê-las expressas de um modo sucinto e perscrutador ajuda a cimentar as idéias sob uma luz mais precisa e clara.

"I don't want to be a product of my environment. I want my enviroment to be product of me" (Frank Costelo). Clássica... hehe.
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*Piadinha. Não precisa me odiar ;D

Um comentário:

  1. concordo, Carlos
    o ser humano tem a tendência de querer ter a segurança de sua família, de seu meio, e por isso ele se torna um monstro dominador, para ter tudo sob controle

    porra, aquela 1a foto parece açaí

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