sábado, 25 de dezembro de 2010

“– Marche!”


Eu queria escrever bem. Há uma grande diferença entre saber escrever e escrever bem. Escrever bem é o dom de conseguir fazer com que as palavras dancem, por assim dizer; tenho amigos que conseguem. Quando elas dançam, nada mais importa senão o espetáculo: os movimentos sutis, sagazes, leves, graciosos, potentes ao mesmo tempo, amiúde emocionantes, inspiradores. Todo o resto deve, com justeza, ser perdoado – e será.

Mas eu não consigo. Minhas palavras não dançam: elas marcham. Repetem uma marcha fria, cinzenta, a passos grosseiros, rudes, ásperos; e ridiculamente uniformizadas elas seguem em direção a um abismo profundo e disforme de uma dialética ao avesso, vagabunda, e por vezes sem sentido. Às vezes, ao menor sinal de emoção ou lirismo, uma sistematicidade rabugenta trata imediatamente de colocá-las todas na linha, em suas fileiras rigorosamente organizadas, e passa a conduzi-las à derrocada em meio a um campo de batalha cercado por trincheiras repletas de poderosas, antigas, cristalizadas e malquerentes conjecturas – uma guerra desproporcional, uma franca e violenta “palavricina”, de fato. Mas, como num ato de indolência em que se ignora até o mais fatal e terrível infortúnio, elas ainda assim marcham de nariz empinado, vomitando impropérios aqui e ali, ostentando preponderância e animosidade, cuspindo na cara da própria linguagem, chutando o saco da dialética, mordendo a mão das filosofias que as alimentam – foda-se. Foda-se a exaltação lírica…


“Como torna alguém venenoso, astucioso e mau, toda a guerra longa que não é conduzida com franca violência!” Nietzsche, ABM 25.

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