segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Nos embalos de sábado à noite (conto)

Não dava pra dormir. Simplesmente não dava. Aquele apartamento minúsculo oprimia todos os meus sentidos, todos os meus instintos, todas as minhas aspirações. Peguei um copo plástico sujo, lavei rapidamente com água e misturei vodka com água. Precisava amortecer meus sentidos. Bebi olhando pela janela; olhava a lua, as estrelas, as nuvens, mas não via nada. Fiquei observando o nada.

Que merda. Eu tava cansado daquilo. Tudo na minha vida era um nada: um nada de sentido, um nada de intensidade, um nada de objetivos. Senti-me um amaldiçoado; o filho mais odiado de Deus; o rebento mais degenerado do universo. Entornei o copo. Preparei outro. Entornei. Preparei mais um. Já começava a sentir um entorpecimento agradável. Eram duas da manhã e uma inquietação começou a crescer em mim; aquela maldita inquietação, uma sensação estranha que já me perturbava por um bom tempo. Era uma sensação de medo, misturada a uma ânsia de sair atravessando paredes à força, colocando a baixo todo aquele prédio infestado de humanos degenerados, frios, hipócritas, molengas, patéticos, odiosos. Sempre que isso acontecia, eu me lembrava da minha arma. Ela estava em cima da cama, descarregada. Peguei-a.

Eu apertava com força minha 9mm na mão direita. Apontava-a pras janelas dos outros prédios e puxava o gatilho. Sentia uma sensação de poder, de raiva; era ótimo. O medo parecia ir embora – mas estaria indo de verdade? Não. Era outra coisa. Na verdade era como se aquele medo se refinasse, se diluísse e se lançasse em minha corrente sanguínea, transformado em puro instinto explosivo que quer responder a qualquer sentimento de coerção com a represália mais forte que se pode produzir.

Senti um arrepio pela nuca que se estendeu só até ao lado esquerdo da cabeça. Minha visão periférica captou – ou teria imaginado? – um vulto passando pela janela que ficava bem de frente pra minha, no prédio vizinho. Virei os olhos naquela direção. As pernas gelaram e deram uma rápida tremida. “É ilusão, João. Tu tá ficando louco”. Apontei a arma pra janela, rangi os dentes e puxei o gatilho; aquele medo depurado ainda ardendo no meu sangue. Virei-me pra porta, assustado, como se alguém fosse entrar por ela se eu não ficasse olhando. “Isso é loucura. Chega!”. Fechei a janela, a cortina, coloquei minha única cadeira em frente à porta. Deitei na cama e entornei o copo de vodka com água. Joguei o copo contra a parede, peguei a garrafa e comecei a beber no gargalo; a arma ainda na mão. Aquele silêncio mórbido era torturante. Vida maldita! Liguei a TV e aumentei bastante o volume.

Na tela apareciam os mesmos idiotas de sempre, fazendo suas mesmas idiotices de sempre; tão supérfluos, tão improfícuos e irrisórios mentalmente quanto era a minha vida. Enojava-me ver toda aquela porcaria. No entanto eu continuava ali, encarando as cores na tela, quase sem piscar, bebendo e puxando mecanicamente o gatilho da 9mm na mão direita, com o braço estendido junto à perna.

De repente apavorei-me – teriam batido na porta? O coração disparou. Um súbito calor se espalhou pelo rosto e peito, chegando até os ombros, e um frio subiu pelo abdômen. Teria eu imaginado coisas novamente? Fiquei fitando a maçaneta. Olhos arregalados. Então ouvi claramente uma segunda batida; um único soco, forte e decidido, com os nós dos dedos, fazendo a porta toda tremer. Saltei da cama impulsivamente. A arma na mão direita e a garrafa na esquerda. Andei bem devagar e sem fazer barulho até a cadeira, coloquei a garrafa em cima dela e afastei-a com cuidado. Aproximei-me pra olhar pelo olho-mágico. O coração parecia querer explodir peito a fora e fugir dali; minhas pernas também. Mas algo como uma curiosidade de origem inominável, algo que parecia ter um prazer masoquista em me atirar no fogo me fez ir em frente e ver quem – ou o que – estaria do outro lado.

Então olhei – e não pude crer nos meus olhos. Era aquela doida, aquela vaca da Joana! Que diabos aquilo significava? Hesitei. Abriria a porta ou não? Tudo ficou confuso. Senti um desejo irracional de sair dali; depois de xingá-la, perguntar o que ela queria, mandá-la embora, sei lá! Mas, por algum motivo que nunca consegui decifrar, simplesmente destravei todas as trancas, girei a chave e abri a porta.

Joana, aquela maldita, que eu nunca antes havia visto de outro jeito senão divinamente bem vestida, sexy, linda, sempre arrogante e malcriada, agora ali, parada na minha frente com um jeans surrado, uma blusa branca manchada de óleo, descalça, com uma maquiagem que parecia borrada já havia uns três dias, aqueles cabelos loiros todos desgrenhados, olhos vermelhos e o rosto úmido. Senti uma espécie de arrepio, um arrepio quente. Não sei se queria simplesmente perguntá-la que diabos ela queria, ou pegá-la pelo braço com toda a minha força, arrastá-la pelo corredor e atirá-la escada abaixo; ou ainda se queria agarrá-la, arrancar-lhe as roupas e traçá-la ali mesmo, no corredor.

Mas não consegui fazer nada, nem falar nada. Simplesmente fiquei ali parado, olhando-a nos olhos, sem piscar. Só uns três segundos depois que consegui perceber a expressão facial com que ela me olhava de volta. Uma expressão estranha; tinha algo de débil, de raivoso, de triste. Então continuamos ali, imóveis, sem fazer som algum, encarando um ao outro por um longo tempo, que poderia ter sido dez segundos ou dez minutos, sei lá. Eu não sabia o que eu estava sentindo naquele momento, menos ainda que tipo de expressão facial toda aquela confusão mental me fazia exprimir. Não conseguia desviar meus olhos dos dela; algum tipo de tensão ou medo me impedia; ou talvez porque simplesmente fosse gostoso ficar olhando bem no fundo daqueles olhos castanho-claros, quase verdes, e que agora tinham um quê a mais de selvagem, de ameaçador: parecia que ela despia minha alma com os olhos – e a fritava ao mesmo tempo.

De repente ela voltou os olhos pra baixo num único movimento e notou a arma na minha mão. Voltou a me olhar nos olhos, agora com uma expressão de espanto e raiva já começando a surgir mais definidamente em seu rosto. Fiquei atônito. Pensei que ela sairia correndo, ou soltaria um grito, ou que falasse alguma coisa – mas não, ficou ali me oferecendo aquela expressão furiosa, triste, doentia. Seu queixo começou a contrair-se e a tremer cada vez mais, apertou os lábios com força, franziu ainda mais a testa, parecia estar prestes a chorar ou a vomitar todos os tipos de insultos e palavrões contra mim.

Ao invés disso, ela começou a levantar o braço direito lentamente, com cuidado, quase de maneira de maneira solene, e o esticou totalmente na minha direção, quase tocando no meu nariz com a… mão? – não, aquilo não era uma mão, era uma .357 totalmente carregada! Aquela puta tava apontando um revólver bem pro meio da minha cara! Não desgrudei meus olhos dos dela nem por um segundo e consegui notar suas roupas, suas expressões, mas não tinha notado até agora a porra da arma que provavelmente ela tava carregando na mão esse tempo todo! Como?!

Pânico. Fiquei em pânico, em choque; senti todo o meu corpo gelar, as pernas tremeram, arrepios de todos os tipos atravessaram meu corpo, o coração chegava a doer de tão forte e acelerado que pulsava. Ainda olhava nos olhos dela, todo o resto, inclusive a arma apontada pro meu nariz eu via apenas perifericamente – eu sabia que ela ia atirar. Por um instante pensei que a minha hora havia chegado; no instante seguinte queria matá-la, estrangular a maldita com as próprias mãos; depois queria sair correndo e me atirar pela janela, só pra não ter de morrer daquele jeito ridículo; depois quis avançar em cima dela, tirar-lhe a arma e explodir-lhe os miolos – ou beijá-la à força e apertar aquela cintura linda; num outro instante já queria que tudo acabasse de uma vez, que não seria tão ruim ter o cérebro atravessado por uma bala pra acabar de vez com aquela vida desgraçada. Senti tudo isso misturado, indo e voltando, sem definição.

Então notei que a mão dela tremia, e que provavelmente já tremia havia algum tempo, mas que só agora tinha conseguido me tirar daquele delírio insano e pavoroso; eu tinha mergulhado naquela confusão, naquele turbilhão de fortes impulsos, enquanto mergulhava também no profundo castanho daqueles olhos, e por isso não tinha notado sequer a mudança de expressão facial dela, nem mesmo as lágrimas que agora corriam pela sua bochecha. O rosto dela começou a se deformar, a tomar uma aparência estranha; era raiva, era tristeza, era dor, era espanto, era… não sei o que era. Ela começou a recuar alguns passos. Agora todo o seu braço tremia e ela soluçava, chorando agora sem mais se conter. Começou a baixar a arma, até na altura da minha cintura. Por uma fração de segundo, consegui emergir de todo aquela loucura e pensar: “essa mulher é mesmo muito doida, eu sempre soube”. Mas logo o pânico voltou, com a dúvida de que merda que aquela maluca infeliz faria agora.

Ela ficou ali, me olhando e soluçando, porém agora menos intensamente. De repente baixou a cabeça. A arma ainda apontada pra mim. Percebi que ela não ia fazer nada e me senti até um tanto idiota por ter me apavorado daquele jeito. Mas ela tava com uma arma carregada e apontada pra minha cara, com o dedo no gatilho, parecendo uma louca, o que mais eu ia pensar? Comecei a me acalmar. Ela começou a parar de chorar, a ficar mais quieta, e parecia mais calma também. Agora que os olhos dela não mais me prendiam, consegui olhá-la melhor, olhar aquele corpo lindo, aquela pele branquinha, lisinha, as mãozinhas delicadas, os pezinhos pequenininhos, a curva perfeita da cintura; mesmo naquele estado deplorável ela continuava linda e gostosa.

Então ela levou a outra mão à arma, ainda apontada pra minha cintura, levantou a cabeça e soluçou mais uma vez. Agora já tinha uma expressão de nada, impassível, mas quase derreteu meus olhos com um olhar ainda mais fulminante do que antes. Inspirou fortemente, como quem está prestes a falar, e abriu suavemente um pouco a boca. Finalmente aquela doida ia desembuchar! Ela disse:

– …

Não disse nada! Mas eu tinha ouvido algo; o que fora? Foi um estampido forte – sim, sim, foi um tiro! Sim, tinha fumaça saindo da boca do cano da .357 – foi um tiro! Aquela doida, aquela filha da puta tinha atirado, bem no meio do corredor, bem na minha direção! Teria me acertado? Eu não sabia, não consegui desviar os olhos dos dela; um medo se apoderou de mim, um frio na espinha, um pavor terrível. O universo inteiro parou um instante. Não tive coragem de olhar pro meu corpo, mas também não sentia dor alguma. Ela continuou me olhando com aquela expressão impassível, enigmática, porém fechara a boca, aquela boca sexy, carnuda, linda, e que curiosamente, mesmo em meio àquele imenso furacão de pânico e loucura, por um segundo conseguiu desviar minha atenção de tudo e até mesmo me deixar um tanto excitado; mas só até eu começar a sentir uma coisa quente escorrer pela coxa esquerda.

De repente a coxa inteira começou a ficar dormente, e depois começou a arder, e arder mais, e a queimar, transformando-se numa dor excruciante. Olhei e vi que tinha sido atingido na coxa esquerda. Aquela vadia desgraçada atirou em mim! Claro que naquele momento não percebi que tinha sido um tiro de raspão, apesar de ter tirado uma boa lasca de carne da parte de fora da coxa, mas não consegui conter um grunhido de dor. Levei minhas mãos à perna, ainda segurando minha 9mm, comecei a me curvar e caí sobre o joelho direito. “Sua filha-da-puta!”, gritei finalmente praquela vadia, olhando pra todo aquele sangue escorrendo, enquanto ela deixou a arma cair bem na minha frente. Levantei a cabeça pra lançar-lhe mais alguns impropérios, mas ela já andava em direção às escadas, devagar, com passinhos bem pequenos e irregulares, cambaleando de uma parede à outra.

Já ouvia-se uma comoção através das portas dos outros apartamentos ao longo corredor, que parecia ser mais largo que meu próprio quarto. Olhei pra arma que ela deixou cair na minha frente. Já não sentia mais nada além daquela dor irritante. Levantei, manquei uns dois passos, peguei a .357 daquela doida da Joana, que já tinha sumido pelas escadas, entrei no quarto e tranquei a porta. Joguei as duas armas no chão, peguei a garrafa de cima da cadeira e arrastei a perna até a cama, deixando um rastro de sangue pelo chão e pelos lençóis velhos e manchados. Olhei pra TV. Aqueles idiotas continuavam lá. Percebi que, desde que aquela doida batera à minha porta, em nenhum momento eu notei o barulho da TV, mesmo estando tão alto. Grande merda! Tomei uns três goles de vodka. Depois mais três. Depois mais, mais. A dor começava a passar. Lá se fora mais um sábado.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Som e Fúria


Que tragédia! A vida é mesmo uma tragédia. Um palco onde os heróis gritam e dançam, e os utopistas choram e rangem os dentes; onde os heróis cospem na cara dos idealistas chorões, cantam, pavoneiam, se ferem, ferem outros, correm de um lado ao outro, sofrem e se alegram sem medo ou ilusões, corajosamente; onde os utopistas derramam suas lágrimas sobre os cacos frustrados de suas ideologias absurdas e ressentidas, enquanto invejam a euforia alegre dos fortes. No fim, o que acontece? Nada – não se fecham cortinas ou apagam-se luzes. Mas, como num passe de mágica, num piscar de olhos, heróis e tolos, protagonistas e coadjuvantes, bestas e vermes, corajosos e covardes, belos e feios, todos caem mortos e desaparecem: um bando de tragos caminhando em direção ao sacrifício – então nada mais é ouvido; todo aquele som e fúria de heróis e deuses esmaece, todas aquelas lágrimas de covardes e fracos desaparecem; os próprios atores deixam de existir. O que? Não houve sentido em tudo aquilo? Mas as Moiras só têm um olho…

"Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life's but a walking shadow, a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing"
Macbeth - Ato 5, Cena 5

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Renan? pfff... Vincent Vega!


“Digamos então, audaciosamente, que a religião é produto do homem normal, que o homem está mais próximo à verdade quando é mais religioso e mais seguro de um destino infinito… É quando ele contempla as coisas de maneira desinteressada que ele acha a morte revoltante e absurda. Como não supor que é nesses momentos que se enxerga melhor?” Ernest Renan, L’avenir religieux des sociétés modernes, 1860.

Ãhn?!

Jules Winnfield e Vincent Vega:

J: – This was divine intervention. You know what divine intervention is?

V: – I think so… that means that God came down from heaven and stopped the bullets?

J: – That’s right! That’s exactly what it means. God came down from heaven and stopped these motherfucking bullets.

V: – … I think is time for us to leave, Jules.

J: – Don’t do that! Don’t fucking blow this shit off! What just happened here was a fucking miracle!

V: – Chill, Jules. This shit happens.

J: – Wrong! Wrong. This shit doesn’t just happen.

V: – Do you wanna continue this theological discussion in the car or in the jailhouse with the cops?

J: – We should be fucking dead, my friend. What happened here was a miracle and I want you to fucking acknowledge it.

V: – Alright, it was a miracle… can we go now?

rs…




“I’m a mushroom cloud-layin’ motherfucker, motherfucker!”

domingo, 26 de dezembro de 2010

Pára tudo!


Ó Tempo! A função do Tempo é sulcar rugas pelo rosto e flexionar a coluna; é entupir artérias e deteriorar os ossos. Ossos do ofício – ofício árduo: viver. Mas foda-se o Tempo. Se o Tempo quiser me foder, quero que seja de frente, e de pernas abertas pois também não quero ser passivo nessa relação. Infelizmente, quem tende a decidir essas posições é o filho bastardo e mais insidioso do tempo, o Devir; sim, o Devir, aquele sadista. Pouco se pode fazer diante dele, embora seja possível, ainda com esse pouco, fazer algo rijo e potente – pelo menos é nisso que quero acreditar.

De fato, o Devir nos impõe muitas coisas – a saber, nossa constituição fisiológica, com suas doenças e deformidades hereditárias; o lugar, a época e as condições sociais em que nascemos e crescemos, com suas escassezes ou abundâncias; as vicissitudes próprias do acaso, com suas sortes ou reveses, fortunas ou infortúnios. Mas há uma coisa em que, por mais que estique seus longos e poderosos braços, ele nunca conseguirá tocar a um nível absolutamente determinante: a mente. Eis o que o Devir não pode emascular, ou pelo menos, penso eu, não se pode deixar que ele o faça – pois o fará ao menor sinal de languidez do caráter.

O orgulho, a parcimônia no aprender, uma certa pernosticidade refinada, a desconfiança, a investigação impetuosa que por vezes beira a crueldade, o prescindir-se de qualquer dogmatismo , a força no querer, no não querer, nas paixões, no amor, no ódio: frutos de uma mente sã e bem aberta – armas portentosas e eficientes que podem e devem ser usadas para acuar essa fera, esse maldito Devir. Não se pode matá-lo ou livrar-se dele nem sequer por um instante, é verdade, mas pode-se colocá-lo em seu devido lugar: não como protagonista, mas como um belo cenário no espetáculo da vida.

Ora, abram-se as cortinas! O espetáculo não pode esperar; e "o Tempo, o Tempo não pára!"

sábado, 25 de dezembro de 2010

“– Marche!”


Eu queria escrever bem. Há uma grande diferença entre saber escrever e escrever bem. Escrever bem é o dom de conseguir fazer com que as palavras dancem, por assim dizer; tenho amigos que conseguem. Quando elas dançam, nada mais importa senão o espetáculo: os movimentos sutis, sagazes, leves, graciosos, potentes ao mesmo tempo, amiúde emocionantes, inspiradores. Todo o resto deve, com justeza, ser perdoado – e será.

Mas eu não consigo. Minhas palavras não dançam: elas marcham. Repetem uma marcha fria, cinzenta, a passos grosseiros, rudes, ásperos; e ridiculamente uniformizadas elas seguem em direção a um abismo profundo e disforme de uma dialética ao avesso, vagabunda, e por vezes sem sentido. Às vezes, ao menor sinal de emoção ou lirismo, uma sistematicidade rabugenta trata imediatamente de colocá-las todas na linha, em suas fileiras rigorosamente organizadas, e passa a conduzi-las à derrocada em meio a um campo de batalha cercado por trincheiras repletas de poderosas, antigas, cristalizadas e malquerentes conjecturas – uma guerra desproporcional, uma franca e violenta “palavricina”, de fato. Mas, como num ato de indolência em que se ignora até o mais fatal e terrível infortúnio, elas ainda assim marcham de nariz empinado, vomitando impropérios aqui e ali, ostentando preponderância e animosidade, cuspindo na cara da própria linguagem, chutando o saco da dialética, mordendo a mão das filosofias que as alimentam – foda-se. Foda-se a exaltação lírica…


“Como torna alguém venenoso, astucioso e mau, toda a guerra longa que não é conduzida com franca violência!” Nietzsche, ABM 25.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Acerca dos efeitos da natureza do ser humano sobre ele próprio

Homo sapiens. Com certeza a besta mais terrível e assustadora que o universo conseguiu gerar. Um cérebro tão poderoso, capaz de produzir interações nervosas e neurológicas tão complexas, que a torna o único ser detentor de uma coisa que ela mesma, também em virtude desse alto nível de complexidade cerebral, denominou de “mente”, ou “consciência”. A única forma de vida que é apta a dar nomes às coisas – apta inclusive a dar um nome ao ato de dar nomes às coisas, a saber, a linguagem. A única forma de vida que consegue ousar se voltar contra os próprios instintos, contra as próprias sensações, contra sua própria natureza.

Observe bem e notará que nenhum outro animal, nem mesmo qualquer outro ser vivo em meio à inúmera quantidade de níveis classificatórios que criamos, volta seus instintos de vida contra si mesmo; apenas esse monstro insaciável, o ser humano, o faz – e o fez de tal maneira, durante toda a sua história, se espancou de tal modo, se agrediu, se iludiu com essa avidez de artista tão poderosa, a qual almeja sempre a tudo modificar e criar algo diferente e superior, que hoje esse pobre ser, vítima de si mesmo, encontra-se de uma maneira disforme, quebrantada, machucada, doente, incapaz de se reconhecer pertencente àquilo que ele mesmo uma vez, como de costume – e até com uma certa ironia – deu um nome: “natureza selvagem”.
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Fiquei pensando em todo esse monte de esterco enquanto dava uma olhada nessa retrospectiva fotográfica de 2010: http://www.boston.com/bigpicture/2010/12/2010_in_photos_part_1_of_3.html

A meu ver – isto é, pode-se discordar de mim, embora seja pouco provável que você esteja mais certo do que eu* – cada um desses registros mostra ser, em sua essência, uma expressão do instinto humano de caráter mais natural, mais básico, que é o instinto de dominação. Mais que um suposto instinto de pura sobrevivência, o impulso de dominar, controlar, modificar tudo o que há em volta, parece vestir de maneira mais adequada o cerne das motivações e sentimentos humanos. Isso se reflete desde as competições de índole esportiva, homicídios passionais até guerras, protestos, atentados terroristas, exploração espacial e de recursos naturais, até mesmo aos atos mais singelos de compaixão, altruísmo, caridade, filantropia e humildade. No entanto, aconteceu que o homo sapiens passou a distribuir conceitos de “certo” e “errado” a determinadas ações, “virtude” e “destemperança” a supostas motivações.

Claro que esse é um assunto muito extenso, controverso e polêmico. Foucault escreveu sobre isso, até mesmo de uma forma que pode soar sádica aos ouvidos mais sensíveis; por sorte, há diversas partes da filosofia dele que podem, se bem manejadas, servir para mimar o senso moral de nossa civilização contemporânea, o que permitiu que seus livros não fossem parar numa fogueira ao pé de uma cruz. Isso não acontece com Nietzsche ou Deleuze, por exemplo; enquanto este é pouco traduzido e alvo de pequeno interesse, aquele é odiado até as entranhas ou ignorado, polido e distorcido em suas partes mais ácidas e contundentes.

Enfim, pra quem já teve alguma inclinação a se fazer questionamentos desse tipo, recomendo ler algum livro desses três aí. Pra mim eles serviram como uma expressão escrita de várias coisas que já intrigavam essa minha pobre mente limitada – e vê-las expressas de um modo sucinto e perscrutador ajuda a cimentar as idéias sob uma luz mais precisa e clara.

"I don't want to be a product of my environment. I want my enviroment to be product of me" (Frank Costelo). Clássica... hehe.
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*Piadinha. Não precisa me odiar ;D

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Breve análise sobre excertos filosóficos de Nietzsche (ou, Como macular a reputação de um gênio)

Lendo Nietzsche - Além do bem e do mal - conclui algo interessante: a linguagem nos seduz a uma apreciação metafísica dos seus significados e, por fim, das coisas às quais esses significados são atribuídos. A palavra “eu”, por exemplo, tende a designar uma concepção metafísica a um aglomerado de processos e de coisas interdependentes, mas que não se configuram numa “coisa em si”. O “eu” não é uma “coisa em si”. Isso pode se tornar um embuste para aqueles que desejam desenvolver um pensamento filosófico a partir apenas do puro significado das palavras. “Deveríamos nos livrar, de uma vez por todas, da sedução das palavras [...] Quem, invocando uma espécie de intuição do conhecimento, se aventura a responder de pronto essas questões metafísicas [...] esse encontrará hoje à sua espera, num filósofo, um sorriso de dois pontos de interrogação” (parágrafo 16)


Fiz uma viagem muito doida há pouco, lendo esses excertos muito bons do ABM. Li só os parágrafos 16-19. Interessantíssimos. Lembro que, da primeira vez que os li, não consegui captar a essência desse pensamento. Mas hoje creio que cheguei até o âmago dela. Nietzsche faz uma crítica ao conceito da vontade, do querer; e a essência dessa crítica baseia-se no desprendimento da concepção metafísica desses conceitos.

Ele começa referindo-se ao pensamento desenvolvido por Schopenhauer que, como ele bem ressaltou, reduz o querer, ou a vontade, a um patamar primário, essencial, básico, isto é, metafísico da natureza humana. Porém, isso representa um preconceito, um engodo lançado pela linguagem, pelo “hábito gramatical”, como Nietzsche colocou. Só mesmo a linguagem para reduzir essa imensa pluralidade de sentimentos e processos químicos e neurológicos, que é a vontade, a uma coisa unitária.

Estou inclinado a concordar com o bigodudo nesse ponto. Afinal, dizer: “A identidade do sujeito do querer com o sujeito cognoscente, em virtude da qual (e necessariamente) a palavra ‘eu’ inclui e designa ambos, é o ponto nodal do mundo, e como tal inexplicável. [...] uma efetiva identidade do cognoscente com o querente, portanto do sujeito com o objeto, ocorre de imediato” (Schopenhauer – A quádrupla raiz do princípio da razão suficiente) – é a mesma coisa que dizer que a parede é o elemento primário da construção de um edifício. Logicamente que não.

Para a produção de uma parede são necessários diversos tipos de processos e materiais, como o cimento e o tijolo. Para a produção de tijolos e cimento são necessários ainda outros processos e outros materiais. Com isso ilustra-se o engano existente em se considerar o ser querente, isto é, o ato de querer como sendo o elemento básico desse estado, com sendo uma “coisa em si”. Por trás dele existe uma enorme gama de sensações e processos neurológicos e psicológicos.

E é a partir daí que o bagulho começa a ficar muito louco – e por louco quero dizer interessante. Tendo consciência de que existem esses pormenores por trás de todo ato da vontade, Nietzsche começa a fazer um extenso exame das sensações que os envolvem. Só lendo na íntegra essas dissertações para se obter uma experiência rica em profundidade, contundência e dramaticidade que só o Bigode consegue imprimir em sua forma peculiar de escrita – mas vou tentar reproduzir essas idéias mesmo minhas habilidades de redação sendo tão pífias e minguadas quanto às de um filhote de orangotango-de-sumatra se comparadas às dele.

“Em todo ato de vontade há um pensamento que comanda; [...] a vontade não é apenas um complexo de sentir e pensar, mas sobretudo um afeto: aquele afeto do comando. O que é chamado ‘livre arbítrio’ é, essencialmente, o afeto de superioridade em relação àquele que tem de obedecer: ‘eu sou livre, ‘ele’ tem de obedecer’ – essa consciência se esconde em toda a vontade” (parágrafo 19). Isso quase que resume as conclusões de Nietzsche, mas antes de afirmar o acima ele faz uma genealogia desses sentimentos e afetos, o que dá uma força impressionante a esse argumento.

Como deu pra perceber, pra Nietzsche o que se esconde por trás de todo o querer é o “afeto de superioridade”, um desejo de dominação, um afeto que existe entre a relação ordenar/obedecer; relação esta que existe dentro de nós mesmos, dentro do que se considera como o “eu” (sacou? Es un chiste!). Aí eu pensei: “porra! lógico, véi!”. Pense bem, toda vez que uma vontade é satisfeita surge um sentimento de poder, de algo dentro de si que se sente o ordenador; ao passo que há algo que se sente dominado, coagido, e tudo isso em diferentes níveis, diferentes amplitudes. Não consigo explicar melhor; sou mesmo um orangotango.

Mas péra aí, não existe também nessa idéia um resquício de metafísica, algo como essa vontade de poder sendo a própria causa sui? Aí é que está, meu caro. É aí que entra aquele desprendimento dos engodos do hábito gramatical que a tudo quer reduzir a um substrato. Essa tal “vontade de poder” também não passa de uma expressão sonora para se referir a um processo natural, puramente material e físico envolvendo átomos, substâncias, neurônios, hormônios, enfim, uma imensidão de coisas que para sequer sonhar em aventurar-se por ela seriam necessários trabalho e empenho de proporções colossais; no entando, não acho que tal empreitada seja impossível.

Nietzsche – Além do bem e do mal. Eis aí uma boa dica para leitura – mas não invente de ler se, como eu, tiveres a inteligência similar à de um primata, ou vais acabar destruindo a reputação do filósofo publicando um monte de merda em algum blog por aí. Internet é foda mêrmo.



*Por sorte, creio que ninguém terá ânimo pra chegar até o fim dessa postagem. Quem hoje gosta de filosofia?